Roberto Freire tornou-se um importante pensador libertário, com presença marcante em diversas áreas de cultura brasileira, especialmente nas últimas décadas do século vinte. Além de escrever mais de 30 livros entre romances e ensaios, Freire envolveu-se no teatro, jornalismo, medicina, cinema e música. Sua participação na luta contra a ditadura militar no Brasil e seu envolvimento nestas distintas áreas serviu de fermento para a criação da Soma – uma terapia anarquista. Roberto Freire faleceu em maio de 2008, mas esteve junto como companheiro e ativista libertário até o fim de sua vida.
João da Mata é seu mais antigo colaborador em atividade. Tem seguido o desenvolvimento e aplicação da Soma há mais de vinte anos, através de publicação de livros sobre as pesquisas mais recentes da Soma, na condução de grupos de terapia, em palestras e cursos, e na difusão da Soma no Brasil e no exterior. Vem também pesquisando a Somaterapia no meio acadêmico, no Rio de Janeiro e em Lisboa, Portugal.
Há mais de 40 anos atuando em vários estados brasileiros e algumas cidades européias, a Somaterapia é coordenada pelo Coletivo Anarquista Brancaleone.
Roberto Freire
Na trajetória de Roberto Freire está expressa não só o terapeuta idiossincrásico que criou seu próprio método terapêutico, a Soma – uma terapia anarquista. Também são nítidos e fortes os traços do militante do tesão como defesa de um modo de vida e a necessidade, sem concessões, do prazer como combustível vital. Ou ainda do dramaturgo, escritor, romancista, autor de mais de trinta livros. Um conjunto literário que não passou desapercebido para a juventude nos últimos trinta anos. Desde “Cléo e Daniel”, seu primeiro romance, que foi best-seller entre os estudantes nos anos 1970, vendendo mais de 200 mil exemplares em bancas de revista, no formato de jornalivro, uma ousadia editorial para a época.Sem dúvidas foi esta mistura de literatura e vida que resultou na Soma.
Os ingredientes? Não é difícil encontrá-los claros e diretos, por exemplo, nos ensaios “Utopia e Paixão”, “Sem Tesão Não Há Solução” e “Ame e dê Vexame”: a ideologia do prazer como arma revolucionária de combate ao sacrifício imposto pelas sociedades autoritárias e hierárquicas.
A noção do tesão como uma espécie de bússola indicadora de nossa singularidade passou a ser a bandeira de luta de Roberto Freire desde seu rompimento com a Psicanálise e com a Psiquiatria tradicional, na década de 1960. Formado em Medicina, Roberto trabalhou em ambulatórios psiquiátricos e fez formação psicanálitica. Afastou-se por divergências ideológicas, achava-as equivocadas e adaptadoras ao sistema social vigente, e aventurou-se pelo jornalismo, teatro e literatura. Como escritor encontrou sua liberdade criativa e redescobriu sua paixão pela Psicologia. No final da década de 60, volta a clinicar e a pesquisar um método terapêutico mais próximo de sua ideologia de vida, o anarquismo no cotidiano.
Hoje, depois de mais de 40 anos levando a Soma para várias cidades do Brasil e alguns países da Europa, a Soma se consolidou enquanto prática terapêutica e pedagógica libertária.
Roberto Freire, nosso querido Bigode, faleceu em maio de 2008. Mas até sua morte, militou apaixonadamente na Soma e no anarquismo brasileiro. Nos últimos anos de vida supervisionou o trabalho dos somaterapeutas do Coletivo Brancaleone e continuou na ativa, preparando seus livros, dando palestras e cursos.
Suas últimas produções foram a autobiografia “Eu é um outro” (Ed. Maianga), o livro “O Tesão pela Vida” (Ed. Francis) em conjunto com os somaterapeutas que na época formavam o Coletivo Brancaleone e o CD “Vida de Artista” com os filhos e amigos.
Leia a Biografia do Roberto Freire
João da Mata tem 42 anos. Teve o primeiro contato com a Soma em 1988 em Recife-PE onde, após fazer sua terapia, iniciou a formação de somaterapeuta com o Roberto Freire e desde então vem pesquisando e desenvolvendo a Soma. Ao todo, foram mais de vinte anos de convivência, aprendizado e amizade com Freire, até sua morte em maio de 2008.
Psicólogo e Mestre em Filosofia, atualmente está cursando dois doutorados. Em um deles, está vinculado ao Doutoramento em Sociologia Econômica e das Organizações pelo ISEG/UTL – Portugal, pesquisando a “Soma e a autogestão”. O outro doutoramento é em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense – UFF, onde investiga “O corpo e a capoeira angola e suas implicações terapêuticas”.
Coordenou grupos de terapia em várias cidades brasileiras. Atualmente trabalha em São Paulo e Rio de Janeiro, onde reside. Desenvolveu grupos terapêuticos também em Lisboa, Madrid e Barcelona, onde mantém um núcleo de pesquisa e trabalho com a Soma.
Publicou em 1993, junto com Freire o livro “SOMA – Vol. III – Corpo a Corpo” (Ed. Guanabara Koogan). Em 2001 lançou “A Liberdade do Corpo” (Ed. Imaginário), livro onde aborda a utilização da capoeira angola como instrumento terapêutico nos grupos da Soma. Em 2006 publicou “O Tesão pela Vida” (Ed. Francis), com os demais somaterapeutas e em 2007, o livro “Prazer e Rebeldia” (Ed. Achiamé). Em 2009, lançou “Introdução à Soma – uma terapia anarquista” (Ed. Achiamé).
Além dos grupos da Soma, desenvolve atendimento individual utilizando-se da técnica somática. Em vídeo, realizou vários documentários tendo sido premiado no Festival Brasilidade promovido pelo MAM/RJ com o filme ‘O Brasil de Walter Firmo’.
Coletivo Brancaleone
A Soma tem hoje quase quarenta anos de atividades no Brasil e na Europa. Nos primeiros anos da história da Soma, o Roberto Freire se debruçou para estabelecer os princípios fundamentais que ainda hoje servem de base teórica e prática de nosso trabalho. Boa parte do desenvolvimento da Soma deve-se a este estudo pioneiro realizado por Freire, fruto de suas pesquisas em teatro, psicologia e política. Algumas vezes acompanhado por companheiros que lhe deram apoio, muitas outras sozinho, Freire foi criando uma rica abordagem que permanentemente vem desenvolvendo-se. Nosso desafio tem sido em contribuir e ampliar o legado que recebemos.
No início da década de 1990, reunidos na Ilhabela, litoral sul de São Paulo, traçamos as bases para criação de um veículo capaz de dar continuidade às pesquisas de Freire, desenvolvendo e difundindo a Soma através de livros, cursos, grupos de terapia, grupos de estudo, pesquisas acadêmicas etc. Assim surgiu o Coletivo Anarquista Brancaleone, reunindo Roberto Freire e uma equipe de somaterapeutas ligados a ele.
Mesmo com a morte do Roberto (maio de 2008), o Brancaleone manteve-se reunindo os somaterapeutas em atividade ou em estágio de formação. Nestes últimos anos, vários companheiros surgiram e tantos outros se foram, fruto da luta constante por uma postura ética que fosse compatível com nossas paixões e desejos. Foram muitos os companheiros que participaram deste coletivo. Recentemente, Jorge Goia e Vera Schroeder se desligaram do coletivo. Eles agora desenvolvem pesquisas onde a Soma possa ser praticada sem aplicabilidades terapêuticas, através do Instituto de Estudos de Soma.
Desde a primeira formação, o somaterapeuta João da Mata manteve-se no Brancaleone, dando continuidade ao trabalho original de Freire. Hoje seu desafio tem sido o de continuar as pesquisas da Somaterapia, nos campos terapêutico e pedagógico, e formar novos terapeutas. Ao Brancaleone, sua tarefa atual é de recriar-se e reinventar-se, para que possa seguir como um dos núcleos de pesquisa da Soma.







