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Para a Soma, o Anarquismo está presente como ética, na prática, na vivência de novas experiências de relações amorosas, produtivas, de moradia, de amizade, que contestem os padrões morais e as regras sociais impostos pelos valores capitalistas. Enquanto terapia que estuda o comportamento humano, definimos a neurose como um produto desta sociedade autoritária, reproduzida em todas as esferas da convivência social, interferindo nas atitudes, comunicações e percepções da individualidade.
Em vários ensaios publicados, especialmente "Utopia e Paixão", "Sem Tesão Não Há Solução" e "Ame e dê Vexame", a política do cotidiano da Soma é explicitada por Roberto Freire: através de uma ética anarquista, baseada no respeito a individualidade e na solidariedade, uma vida saudável busca o prazer contra o sacrifício. Ao romper a visão tradicional de esquerda e direita e propor uma nova divisão política, a Soma vê o Anarquismo como a ideologia do prazer que combate e resiste a ideologia do sacrifício, amplamente difundida não só pelo neo-liberalismo globalizado, mas também nos cânones do marxismo e da psicanálise, duas teorias arraigadas no imaginário do senso comum.
Não dá para continuar esperando o "paraíso socialista"; nem permanecer acreditando que a natureza humana tem um lado anti-social, o "instinto de morte". Na Soma é freqüente encontrarmos comportamentos inspirados nestes determinismos científicos, que justificam o conformismo, a inércia, a submissão, o pessimismo, o desencanto, o ceticismo, todos com rigidez ideológica enraizada no sacrifício do prazer e da liberdade. Então, nossa proposta terapêutica é romper com estas "couraças" que limitam a realização das utopias anarquistas no aqui e agora, incentivando a rebeldia diante da neurose capitalista e apoiando as iniciativas libertárias.
Como somaterapeutas, reunidos no Coletivo Anarquista Brancaleone, há anos estamos realizando produções cooperativas com vários companheiros anarquistas, seja na realização de eventos e palestras, como na publicação de livros e periódicos. Por isso, o que nos interessa e motiva em relação ao Anarquismo é sua prática muito mais que seu discurso. Resgatar para o Anarquismo seu caráter de rebeldia, de ação direta, de construção de novas sociedades. Este é o nosso tesão, o nosso "anarquismo somático".
Nos grupos de Soma temos experimentado a autogestão, seus benefícios e dificuldades. Mais do que discutir a teoria anarquista, incentivamos a busca do consenso, a abolição das lideranças fixas, a comunicação limpa de jogos de poder, a solidariedade em vez da competição. Lidamos com a neurose capitalista cerceando as relações pessoais.
A decadência e a falência das sociedades autoritárias pedem uma afirmação de alternativas. E só o Anarquismo pode oferecer esperança, em ações e práticas de sociabilidade que se contraponham as hierarquias sociais. Para isto, precisamos ser mais ousados, menos tímidos, nos posicionarmos não apenas em palavras, mas sobretudo em atitudes, em projetos, em utopias que mostrem um Anarquismo possível de se ampliar para além da sua solidão. |